CARTA III

COMO NOSSO CORPO SE ORGANIZA PARA DANÇAR? QUE CORPOS SÃO ESSES? QUAIS FORAM AS DESCOBERTAS DESSES CORPOS? COMO É A NOSSA DANÇA?

Para: Você (ou para Oliver Sacks)

CARTA III
COMO NOSSO CORPO SE ORGANIZA PARA DANÇAR? QUE CORPOS SÃO ESSES? QUAIS FORAM AS DESCOBERTAS DESSES CORPOS? COMO É A NOSSA DANÇA?

Boa noite, Sr. Oliver Sacks, e boa noite para você que também está lendo esta carta. Embarco em mais um tema e não sei muito bem onde vou chegar. Tenho passado por algumas crises de ansiedade por esses dias, essas cartas estão me consumindo bastante, pois é muito importante para mim, dizer e contar para vocês, quem são esses dançarinos.  Quero descrever nosso dia a dia com toda a poesia, profundidade e complexidade que existe nesses encontros. Não sei se é possível dar conta de tanta complexidade, até por isso não tenho dormido. Como posso fazer com que vocês tenham ideia sobre tantos assuntos e tanto amor e dedicação que tenho entregado para esse grupo, como contar sobre o amor e entrega que eu recebo desse grupo? Não sei se cabe. Talvez eu esteja pessimista hoje, nesse sábado gelado. Mas por eles eu quero continuar e tentar descrever tudo isso.

Seguirei…

Já fomos uma turma bem grande, chegamos até a nos dividir em dois grupos, mas com idas e vindas hoje a turma é uma só e é composta por oito dançarinos, com idade variada de dezoito a trinta e nove anos. São seis mulheres e dois homens, que gostam muito de dançar e ficar a tarde toda na escola.

Para apresentar cada um dos alunos/dançarinos vou mostrar como eles se vêem. Isso foi numa de nossas aulas em que eu pedi para que eles fizessem seu autorretrato, o corpo todo, com todos os detalhes. Em seguida, terminado o autorretrato eu trouxe o espelho e pedi para que eles se observassem com muita atenção, em todas as características de seu corpo e em seguida fizessem outro desenho, agora com o “auxílio” e referência do espelho. Por último fiz uma foto de corpo inteiro de cada um. Você vai ver dois aspectos e pontos de vista de cada dançarino. Como eu me vejo e como é meu reflexo.

Essa é Teté, tem 39 anos e está no Núcleo há 15 anos. Uma mulher com temperamento e personalidade forte e nessa mesma intensidade dança e faz com que todos a amem.

Primeiro autorretrato:

Auto retrato feito por uma aluna do IADHEC com déficit cognitivo.

 

Segundo autorretrato com a referência do espelho:

Auto retrato feito por uma aluna do IADHEC com déficit cognitivo.

 

Não quero aqui ficar analisando o psicológico de cada um através do desenho, mas levantar alguns pontos, como: corpo, desejos, movimento.

Teté tem o tronco bem grande e imponente, e creio que seja assim que ela vivencie seu tronco, pois no desenho ela o mostra como um bloco grande, onde seus braços e pernas acabam diminuindo de tamanho. Cores quentes como o sangue que circula em seu corpo e a move para dançar/viver. Ela assinou o autorretrato depois que terminou o segundo desenho e escreveu o nome de sua melhor amiga, Gabriela, aluna que não estuda mais na escola, mas que todos os dias (sem exceção) é lembrada por Teté, que sente muita saudade da Gabi.

Com o segundo autorretrato ela percebe que sua barriga é grande e arredondada, mas mesmo assim o bloco permanece, só que agora com as pernas liberadas e com articulações, diferente dos braços, que faz parte do bloco/corpo. O azul gelado do espelho ficou presente em seu segundo desenho, seu nome verdadeiro foi colocado e não mais de sua amiga do coração.

E por último sua foto, que eu mesma tirei e que ela ficou muito orgulhosa do resultado, achou que saiu bem na foto.

Parece-me que seu corpo não tem hierarquia nem proibições, não que ela não saiba o que cada parte do corpo signifique, pois sua ampla percepção do todo faz com que as coisas sejam mais porosas, seus seios são tão presentes quanto os joelhos ou boca, ela não os esconde e até brinca com o significado deles debochando de quem os vê como parte do corpo “pecaminosa”, Teté tem humor e ironia. É como se ela não fizesse claramente a separação tão cara para nós entre corpo e mente. Isso acaba refletindo em seu modo de estar no mundo.

A consciência de quem ela é passa por outro lugar, não só do racional, é mais que isso, ela é, e pronto, e isso é tão instigante. Eu como atriz tenho a busca constante de vivenciar o corpo como um todo, realmente ser, sem fragmentações de corpo/mente, espaço/tempo. Viver e ser o Tempo, fazer com que as relações se façam no presente e sigam como ramificações sem fim e que sejam incontroláveis (e que isso seja natural). Percebo que o caminho para isso seja a sensibilização do corpo e a conexão com o espaço, isso só acontece quando eu me “permito” e sigo os fluxos naturais, os mais primitivos e arcaicos de mim mesma, quando eu me “permito” ser mais natureza. Teté é natureza.

Sendo assim, sua dança passa por imagens concretas como samurais, guerreiros, leões, feiticeiros, piratas e lenhadores. É possível ver durante seus improvisos essas figuras que de alguma maneira ela se identifica, talvez pela sua bravura, pelo seu tônus muscular ou pelo seu desejo de luta e enfrentamento. Mesmo que a proposta não tenha nada a ver com esses personagens, alguns deles aparecem na dança de Teté, fazem parte do seu repertório de imagens e do que ela entende sobre movimento, isso acaba vindo à tona enquanto ela dança.

Seu fluxo de movimento é fragmentado, sim, é contraditório, mas quero dizer que faz parte do fluxo dela dar pequenas pausas que acabam mudando a direção do seu pensamento/movimento. Sua dança é tão linda, a movimentação nos surpreende, pois embarcamos com ela em um caminho, mas que de repente o traçado é subvertido e ela segue em outra direção, totalmente inesperada, isso faz com que sua dança seja uma surpresa deliciosa a cada minuto.

Ela percebe melhor suas articulações, e vem descobrindo as possibilidades dos movimentos mais fluidos e delicados, pois sua tendência é a movimentação pontuada, em “staccato”, com o tônus mais elevado, muito vigor em seus improvisos.

Ao longo dos anos Teté descobriu como dar pequenos saltos, fazendo seu corpo mais leve com o impulso vindo do chão, e isso a deixa muito feliz, ela sempre comemora quando consegue saltar, ela que é tão “terra” descobriu o ar e a leveza. Ela tem pesquisado e descoberto maneiras de se movimentar com mais suavidade, para isso tenho que lembrá-la de experimentar essa qualidade, mostrando para que ela perceba em seu corpo a diferença entre as duas qualidades de movimento. Descobriu também (e esse dia foi lindo) que pode colocar uma saia para dançar, e que o tecido faz desenhos no ar, que girar com a saia é bem gostoso. Para Teté, colocar uma saia é desagradável, ela não gosta mesmo, mas nesse dia ela topou experimentar e embarcou na dança.

Sabe Sr. Oliver, essas “pequenas” descobertas, como estar de saia, são grandiosas, pois qualquer nova possibilidade é uma porta que nos abre e que nos mostra um outro tanto de coisas. Com essas novas experiências o corpo se torna mais criativo e experiente, as vivências vão moldando nossa vida e nossa dança, e essas descobertas contam nossa história, e como o Sr. mesmo disse:

Em certos limites, a experiência molda constantemente o cérebro, e assim, o cérebro é também um reflexo de experiências, pois as pré-determina. Como resultado nossos cérebros se tornam pessoais. (1997, TV Cultura, Roda Viva).

Adoro essa entrevista que o Sr. deu no Roda Viva, na TV Cultura, por isso já citei várias vezes. Hoje, quarta-feira, 20/05/2015, perguntei para cada um o que eles tinham aprendido ou descoberto ao longo desses anos, e a Teté me respondeu assim:

  • Rolar no chão
  • Dançar como a Gabriela, rebolando grande, tocando a guitarra e dançando pros lados
  • Descobri a sombra
  • Descobri os ossos
  • Abraços e beijos

E para terminar quero dizer que as descobertas de Teté são descobertas porque ela tem consciência delas. Como sei disso? Além dela ter listado para mim suas descobertas, quando ela faz algo novo, ela comemora com um “Uhuuu” e me abraça.