Comunicação Suplementar e Alternativa

Reflexões sobre a Comunicação Suplementar e Alternativa

Renata Cristina Bertolozzi Varela

Terapeuta Ocupacional, mestre em Ciências da Reabilitação, sócia-fundadora da clínica Espaço de Acesso, supervisora na área de Comunicação Suplementar e Alternativa do IADHEC, vice-presidente da ISAAC-Brasil / Associação dos Membros Brasileiros da International Society for Augmentative and Alternative Communication.

Meu olhar atento à comunicação das pessoas atendidas em Terapia Ocupacional começou a ser construído ainda nos tempos da faculdade, em que me dediquei a estágios e pesquisas no campo da Saúde Mental, e foi se sedimentando com a minha formação em Terapia Ocupacional Dinâmica. Neste Método, o núcleo duro da nossa intervenção se constrói a partir de uma relação triádica – estabelecida entre o paciente, o terapeuta e as atividades realizadas. Portanto, se há relação, há de se ter comunicação.

Há 18 anos, quando comecei a atender crianças com deficiência neuromotora, as dificuldades comunicativas muito me impactaram. Eu precisava conseguir conversar com elas, saber o que queriam fazer na terapia ou o que tinham achado do que eu havia proposto, entender expressões que pareciam representar sentimentos, entre tantas outras necessidades de dialogar sobre interesses, fatos, escolhas e elementos da própria atividade que estávamos fazendo. A partir destas vivências, surgiu a grande motivação de buscar conhecimento e estudos na área da Comunicação Suplementar e Alternativa (CSA).

Ao longo deste percurso aprendi que, à sua maneira, todos já se comunicam, “a comunicação é inevitável”. O primeiro passo, portanto, é adequar a postura de interlocutor frente às dificuldades comunicativas do outro. É necessário ser ativo e, a partir da convivência, ajudá-lo a construir significado a cada gesto, movimento, vocalização e expressão facial, compartilhando com o social. Estabelecida esta troca, considerando uma abordagem interdisciplinar, é possível planejar uma ampliação das possibilidades, combinando a fala com outros tipos de símbolos, como objetos, fotos e figuras pictográficas, que são associados às experiências deste indivíduo, para nomear suas ações, preferências e, posteriormente, favorecer escolhas e expressão.

Partindo de uma avaliação que integra características motoras, sensoriais e cognitivas do sujeito e, principalmente, o levantamento das atividades realizadas e do vocabulário que faz sentido em seu cotidiano particular, planejamos, junto a ele, sua família e equipes de atendimento, o melhor recurso a ser utilizado e a forma como ele indicará o que deseja comunicar. Os recursos são a estrutura física da comunicação, a maneira como os símbolos podem ser organizados para favorecer a acessibilidade, e podem contemplar dispositivos de baixa tecnologia, como pastas e símbolos espalhados pelo ambiente, ou de alta tecnologia, como comunicadores eletrônicos, computadores e tablets. A partir disso, coordenamos um treinamento de utilização dos recursos pelo usuário e seus interlocutores e a implementação de estratégias que favoreçam, estimulem e oportunizem a comunicação – receptiva e expressiva – com a maior frequência possível.

A aplicabilidade da Comunicação Suplementar e Alternativa no dia a dia destas pessoas, no entanto, tem se configurado como um grande desafio, por diferentes motivos. Um dos principais refere-se à crença de que o uso de uma forma alternativa pode comprometer a possibilidade de desenvolvimento da fala – este é um mito que as pesquisas científicas já estão desconstruindo. O outro refere-se à necessidade de o parceiro de comunicação adotar uma mudança de hábito, ao ter que complementar a sua oralidade, que pratica de maneira tão espontânea desde os primeiros anos de vida, com a adoção de novos instrumentos – por este motivo é tão importante o real engajamento de todos os envolvidos.

Dentro deste contexto, a escola se configura como fundamental para o desenvolvimento de ações no âmbito da CSA – é nela que, este sujeito com dificuldades na fala, advindas de diferentes condições de saúde, permanece horas do seu dia, se relaciona com outras pessoas além da família, entra em contato com elementos da cultura, amplia seu repertório de conhecimento e, em alguns casos, precisa ser avaliado quanto ao que aprendeu. Deixá-lo, portanto, sem instrumentos para que possa frequentar uma escola com maior qualidade na comunicação, é privá-lo da possibilidade de amadurecimento e conquista de autonomia. Em contrapartida, ao considerá-los, apoiamos o planejamento dos projetos pedagógicos, a organização do pensamento e o desenvolvimento da linguagem e, para muitos, até a possibilidade de alfabetização, tão valorizada neste ambiente.

Atuar com a CSA na escola, profissionalmente falando, é de uma riqueza ímpar, pois temos que inserir no raciocínio clínico as mais diversas variáveis que fazem parte da vida real, extrapolando os limites da sala de terapia. Lidamos com necessidades diversificadas, uma rotina dinâmica de atividades e formamos mediadores. Trabalhamos com a perspectiva de ajudar a dar voz a quem não fala, para que este possa imprimir o seu tom e suas nuances dentro de um grupo, exercer um papel social e pertencer à sua maneira, apesar de todas as possíveis limitações. Afinal, não é isso que todos nós buscamos nesta fase da vida? E por que não garantir esse direito a todos?