Educação especializada

Pedagogos e especialistas discutem o protagonismo dos estudantes nas escolas

Embora a adequação de formatação às novas soluções tecnológicas ocorrer em todos os aspectos de nossas vidas – carros sem motoristas, internet e demais dispositivos inteligentes representantes da indústria 4.0 -, a escola atual permanece nas mesmas configurações da escola do século XIX.
O formato criado durante a Revolução Industrial é remontado na maior parte das escolas do país: uma lousa posta em frente aos alunos enfileirados, prontos para sentar diante da figura do professor, este preso a um currículo extremamente engessado. É de consenso entre os especialistas da área que esta configuração não é mais apropriada.
Cláudia Passos, diretora da Ecohabitare, empresa de consultoria e projetos educacionais, afirma que a lógica da escola na Revolução Industrial baseia-se na ideia produção de consumo e consumidor, visando a preparação para a fábrica. Segundo Cláudia, este raciocínio não faz mais sentido.
O educador José Pacheco, que é também criador da Escola da Ponte – instituição portuguesa e pública de ensino que é, hoje, uma grande referência mundial por seu modelo pedagógico – afirma a importância de substituir sistemas de ensino por sistemas de aprendizagem de fato. Segundo ele, isto significa romper com a ideia do professor como único protagonista, responsável por instruir e transmitir conhecimentos para os estudantes. Em um sistema de aprendizagem, os professores medeiam a relação dos alunos com os conteúdos, mas são os alunos quem de fato produzem seu próprio conhecimento.
Pacheco revela que a sala de aula é apenas um dos locais em que o aprendizado pode ocorrer, estendendo esta possibilidade para espaços da cidade, como parques, museus, outros locais da escola ou da própria casa, por exemplo. Segundo o pedagogo, para que a aprendizagem ocorra genuinamente, ela deve ser significativa. Assim, é essencial que o aprendiz conheça os porquês que envolvem querer saber, querer buscar, como ou por que se informar, como ou por que produzir conhecimento.
Estes eixos orientaram para a criação da Escola da Ponte, em 1976. Nesta instituição, o espaço reflete a pedagogia: não existem salas de aula estritamente configuradas, mas espaços de usos diversos onde os os professores não lecionam uma disciplina específica, mas atuam como mentores entre os estudantes e as áreas de interesse de cada aprendiz.
No Brasil, o Projeto Âncora se estrutura nesta mesma filosofia de autonomia. José Pacheco relembra uma visita ao projeto onde uma criança de 9 anos, recém-chegada de outra escola, afirmou querer ser rapper. As possibilidades pedagógicas permitiram que ela atribuísse significado ao que aprendia e, atualmente, se apresenta pelo país como MC Soffia.
Sobre a implementação de sistemas de aprendizagem nas escolas
Pedro Demo, PhD em Sociologia pela Universidade de Saarbrücken, Alemanha, compartilha da mesma opinião que Pacheco: é nos estudantes que deve-se focar a criação de conhecimento. Pedro afirma que os dados informados em 2015 pelo Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) demonstram uma grande queda no aprendizado adequado de português entre os anos de 1995 e 2015, exemplo que reflete as falhas do modelo instrucionista adotado.
Para que a transição para este modelo de escola onde os estudantes podem exercitar e construir o pensamento crítico ao invés de copiar, decorar e reproduzir conteúdos específicos seja realmente possível, é não somente necessário como de extrema importância repensar a formação e proporcionar a capacitação de educadores.