A Arte como conhecimento na Educação Especial

Exposições adaptadas para que sejam aproveitadas também de forma sensorial, através do tato, para o público com deficiências sensoriais, motoras e mentais é realidade no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP). Desde 1991, a instituição possui o programa “Museu e Público Especial”, que enfatiza o papel sociocultural também para pessoas com deficiência.

O projeto destaca-se em nível nacional por possuir educadores que têm intenção de incentivar e desenvolver os conhecimentos da arte com esse público específico. O trabalho envolve ações multissensoriais e práticas para esse público, mas também cursos, palestras, exposições itinerantes e intercâmbios entre escolas e instituições com o objetivo de assessorar a comunidade nesse âmbito.

Amanda Pinto Tojal é docente do curso “Ensino da Arte na Educação Especial”, que instrui profissionais para projeto de aulas e cursos das áreas da educação, saúde e artes. Possui mestrado com tema “Museu de Arte e Público Especial” e utiliza-se de métodos desenvolvidos no MAC/USP, para coordenar o programa em questão, que visa a apreciação visual e sensorial do objeto artístico pelo público deficiente. Em entrevista para o EducaBrasil, apontou sua visão sobre algumas questões da área.

Segundo a coordenadora, há uma falta de profissionais que trabalhem os conhecimentos da Arte, História e Cultura, pois nas suas formações são enfatizados apenas o âmbito terapêutico ou educacional. A Arte e o Ensino da Arte são necessários e importantes nesses processos, mas não devem restringir-se somente ao trabalho manual, que se intitulam erroneamente como Ensino da Arte. A Arte deve aparecer, então, como produção consciente de um conhecimento que leva em conta as referências culturais e históricas, a individualidade e a expressividade de cada paciente ou aluno.

O curso é feito de modo teórico e prático. Assim, ao fim do programa, os participantes realizam um planejamento anual em relação as suas realidades, enfatizando o conhecimento da História da Arte e tendo como um dos principais pilares o objeto sensorial. A percepção tátil pode adquirir grande importância dependendo do comprometimento da percepção mental ou visual. Porém, se há limitações intelectuais, conceitos abstratos são adaptados de forma real e concreta para que o conhecimento seja possível, de acordo com Tojal.

Os participantes terminam o curso com um projeto para a instituição que trabalham já considerando as especificidades do público que atenderão. Além disso, é levado em conta o conhecimento e reflexão das diversas deficiências e suas implicações para que seja possível entender como adaptar os cursos e programas de arte. Há possibilidade de aplicação do curso em outras instituições, para que os profissionais estejam aptos para oferecer qualidade de acordo com as possíveis diferenças e limitações. Ainda é carente o Ensino de Arte na Educação Especial, esse é um dos motivos para a grande procura do programa, que está sempre com lista de espera.

Amanda diz que a Arte é uma maneira de conhecimento e expressão pessoal ou coletiva que foi desvalorizada em relação as outras, mesmo possuindo a mesma importância. É também uma forma de expressão de comunicação, sentimentos e conhecimentos em relação a vida e ao mundo, que as pessoas desenvolvem de uma maneira ou outra. Isso

também ocorre com pessoas deficientes, que podem ver, na Arte, uma forma de facilitar essas atribuições e trabalhar questões emocionais, sensoriais e de comunicação verbal.

Sobre métodos, a coordenadora ressalta que os trabalhos com Educação Especial e Arte são muitas vezes reduzidos ao auxílio da terapia ou ao diagnóstico terapêutico. Por isso a inovação do projeto “Museu e Público Especial” do MAC-USP, que trabalha a Arte como conhecimento e como expressão do indivíduo e do universo das pessoas deficientes. Assim, são feitas adaptações de métodos já existentes no Ensino da Arte e adotados no curso Ensino da Arte na Educação Especial.

Quando questionada pelo EducaBrasil sobre os resultados esperados para as pessoas com deficiência que participam dessa experiência, Tajal enfatiza o acesso cultural para todos. Segundo ela, por muito tempo o espaço museológico foi restrito, sacralizado e de difícil acesso até para o público em geral. Assim, ao fazer com que os deficientes participem como todos desse ambiente, mesmo com suas limitações, estamos os incluindo na acessibilidade necessária à cultura e ao patrimônio.

Além disso, ela enfatiza que a expressão das emoções e vivência em grupo permitem um fluxo e conhecimento artístico que podem trazer inúmeros benefícios como proporcionar expressão, autoconhecimento, melhoria da autoestima, percepção de mundo e integração social. Dessa forma, mesmo não sendo o objetivo final, pode também promover melhoras psicomotoras, sociais e individuais pois estarão conhecendo a si mesmos e ao mundo ao seu redor através de um programa de ação educativa especializada.

Amanda Tojal explicita que a temática do seu curso é trabalhar com metodologias adaptadas para que os profissionais de inúmeras áreas, possam compreender as diferentes limitações e as características específicas de cada deficiência. Em seguida, o profissional deve entender como exercitar o conhecimento para além das questões visuais, ou seja, de forma sensorial dentro da Arte. O profissional, então, deve construir seu planejamento e didática direcionados para as particularidades existentes em seus pacientes ou alunos.